Cativeiro babilônico

O cativeiro babilônico

por Jonathas P. Vieira

Introdução

 

Será abordado nesse trabalho o contexto histórico relacionado às quatro deportações que reduziram o reino do sul ao cativeiro de exílio na Babilônia, mostrando os reis do Império babilônico, períodos de seus respectivos governos até a queda da Babilônia; os personagens proeminentes no período de retorno a Jerusalém para a reconstrução do templo, para a instituição do culto, para a reconstrução da cidade e dos muros e o reassentamento da população judaica. Com relação ao cativeiro babilônico destacaremos quais foram os efeitos que ele engendrou na mentalidade dos israelitas.

O Exílio de Judá

 

            O falecimento do piedoso monarca de Judá, Josias, em 609 a.C. colocou termos derradeiros à reforma religiosa e, durante o reinado de seus filhos Salum e Jeoaquim, as práticas pagãs retornaram e novamente infiltraram-se no reino do sul. Em 605 a.C., Nabucodonosor derrotou o exército egípcio em Carquemis, junto ao Rio Eufrates (próximo à atual fronteira entre a Turquia e a Síria). Marchando para o sul, Nabucodonosor invadiu Judá e sitiou Jerusalém no terceiro ano do reinado de Jeoaquim (Eliaquim) (Dn 1:1), ocasião na qual chegou aos seus ouvidos a notícia de que seu pai havia morrido, então este resolve retornar à Babilônia, levando consigo os tesouros do Templo do Senhor e os tesouros da casa do rei e vários jovens da família real e da nobreza de Judá. Quatro destes jovens se mostraram valiosos conselheiros para o novo rei babilônico: Daniel (Beltessazar), Hananias (Sadraque), Misael (Mesaque) e Azarias (Abede-nego) (Dn 1). Essa foi a primeira e menor das quatro deportações efetuadas pela Babilônia em Judá.  Em 604 a.C. Jeoaquim se tornou vassalo de Nabucodonosor Rei da Babilônia (um ano depois da vitória em Carquemis), mas, motivado pelo governo egípcio, o rei de Judá se revoltou contra o domínio babilônico por volta de 601 a.C. Então em c. 598 a.C. Nabucodonosor executou medidas com relação à rebelião, ordenando que o rei Jeoaquim fosse preso em cadeia de bronze e levado à Babilônia. Jeoaquim, portanto, foi sucedido por seu filho Jeconias de dezoito anos de idade, que governou por apenas três meses, porque em 597 a.C., Nabucodonosor cercou Jerusalém e Jeconias se rendeu. Tendo Nabucodonosor sitiado a cidade e a tomado, prendeu seu rei e tomou para si vários despojos da cidade. Nesta, que foi a segunda deportação, Nabucodonosor transportou a toda Jerusalém, todos os príncipes, todos os homens valentes, todos os artífices e ferreiros, ao todo dez mil; ninguém ficou, senão o povo pobre da terra, transferiu também a Jeconias para a Babilônia; a mãe do rei, as mulheres deste, seus oficiais e os homens principais da terra, ele os levou cativos de Jerusalém à Babilônia (2Rs 24:10-17), e dentre os deportados estava um jovem aprendiz de sacerdote chamado Ezequiel.

O profeta Jeremias amaldiçoara a Jeconias declarando que seus descendentes não se assentariam no trono de Davi. Com a deportação deste rei para a Babilônia, Nabucodonosor colocou a Matanias, tio de Jeconias, para ocupar o trono de Judá e mudou seu nome para Zedequias, que foi ajuramentado a prestar-lhe lealdade. No entanto, anos mais tarde Matanias se rebelou contra o domínio babilônico. A Babilônia então reagiu violentamente. Nabucodonosor e seu exército cercou Jerusalém e no nono dia do quarto mês (18 de julho de 586 a.C.), a fome em Judá se tornou incomensurável, tal que o povo não tinha mais o que comer. O inimigo penetrou o muro da cidade e Zedequias e seu exército fugiram durante a noite, no entanto foram capturados. Zedequias foi levado à Ribla, na Síria, onde depois de testemunhar a morte de seus filhos, teve os seus olhos vazados, foi então deportado para a Babilônia preso em cadeias de bronze. Um mês depois que os babiblônios invadiram Jerusalém, no sétimo dia do quinto mês (14 de agosto de 586 a.C.), Nebuzaradã, comandante da guarda imperial, ateou fogo no Templo do Senhor, no palácio real e em todas as casas de Jerusalém e derribou seus muros. Nebuzaradã levou para o exílio o povo da cidade, deixando apenas os mais miseráveis da terra para cuidarem das vinhas e campos. Nessa terceira deportação a maior parte dos habitantes de Judá foi levada para a Babilônia. Gedalias foi constituído pelo domínio babilônico como governante da terra de Judá, entretanto pouco tempo depois de sua nomeação, este governante foi morto por Ismael. Muitos dos judeus restantes, incluindo Jeremias, fugiram para o Egito, nada obstante a advertência profética de Jeremias para que permanecessem em Judá. Portanto em c. 582 a.C. um outro grupo de judeus foi deportado para a Babilônia, constituindo-se assim como a quarta deportação, ficando a terra assolada e sem habitantes (Jr 52:30).

O Cativeiro: Os judeus na Babilônia

 

            Os judeus que sobreviveram à longa jornada para a Babilônia certamente foram colocados em assentamentos separados dos babilônios e receberam permissão de se dedicar à agricultura e trabalhar para sobreviver (Ez 3:15; Ed 2:59; 8:17; Jr 29:5), mas o trauma do exílio é expressado claramente pelo salmista: “às margens dos rios da Babilônia, nós nos assentávamos e chorávamos, lembrando-nos de Sião. Nos salgueiros que lá havia, pendurávamos as nossas harpas, pois aqueles que nos levaram cativos nos pediam canções, e os nossos opressores, que fossemos alegres, dizendo: entoai-nos algum dos cânticos de Sião. Como, porém, haveríamos de entoar o canto do Senhor em terra estranha?(Sl 137:1-4)”. Nabucodonosor faleceu em 562 a.C. e Amel-Marduque (Evil-Merodaque), seu filho passou a reinar sobre o império Babilônico, foi ele quem libertou o rei Jeconias (Joaquim) da prisão e o permitiu comer à mesa do rei para o resto da vida. Evil-Merodaque dominou tão somente por dois anos (562 – 560 a.C.), foi assasssinado por seu antigo general e cunhado Neriglissar que dominou de 560 a 556 a.C. Após este reinado de quatro anos, Neriglissar morreu e subiu ao trono seu filho, Laborisoarcode (Labashi-Marduque) em 556 a.C. Este reinou por apenas nove meses e foi assassinado por Nabonido que com isso passou a ser o rei da Babilônia (556 – 539 a.C.), Nabonido provavelmente se casou com uma filha de Nabucodonosor. Ele nomeou seu filho, Bel-shar-usur (Belsazar) regente de Babilônia e partiu para Tema. Capturou Tema, exterminou grande parte dos habitantes e estabeleceu sua autoridade nesse local onde permaneceu dez anos, de 553 a 543 a.C. Enquanto Nabonido estava na Arábia (Tema), e Belsazar era rei (príncipe regente) em Babilônia, uma nova e grande potência mundial começou a se levantar, a saber, os medos e persas, sob o comando do imponente Ciro II, que vinham avançando para o norte acometendo o império babilônico. Em 547 a.C, Ciro derrotou Creso de Lídia e tomou sua capital, Sardes. Reconhecendo a forte ameaça medo-persa, Nabonido retornou para a Babilônia, todavia nada pode impedir a vitória desta nova potência e, no final do verão de 539 a.C, os persas atacaram. Ciro derrotou os exércitos da Babilônia em Opis.  No 14º dia de Tisri (10 de Outubro), Sipar foi capturada sem reagir e Nabonido fugiu. Na Babilônia, Belsazar não se sentiu ameaçado, pois julgara que os muros inexpugnáveis da cidade podiam resistir a vários anos de cerco. Num gesto desafiador, Belsazar pediu que lhe trouxessem as taças de ouro e prata do templo do Senhor em Jerusalém e, pouco depois, uma inscrição misteriosa apareceu na parede do palácio real: “MENE, MENE, TEQUEL E PARSIM”. Daniel, com cerca de oitenta anos de idade, aposentado de suas funções na corte, foi chamado para interpretar a mensagem. E a interpretação de Daniel foi “MENE: contou deus o teu reino e deu cabo dele. TEQUEL: pesado foste na balança e achado em falta. PERES: dividido foi o teu reino e dado aos medos e aos persas” (Dn 5:26-28) – predição que se cumpriu de forma imediata. Naquela mesma noite, Belsazar foi morto, e Dario, o medo, foi constituído rei, pondo fim ao período do Império Babilônico.

Ciro, o grande dominador do novel império Medo-persa, tratou bem os babilônios, na verdade, ele procurou tratar com respeito todos os seus súditos leais, inclusive os judeus. Ciente da profecia de Jeremias, segundo a qual a desolação de Jerusalém duraria setenta anos, Daniel pediu a Deus para intervir (Dn 9:2,18b,19).

As orações de Daniel foram respondidas prontamente. Em 538 a.C., Ciro fez uma grande proclamação, registrada no final de 2 Crônicas: “Assim diz Ciro, rei da Pérsia: o Senhor, Deus dos céus, me deu todos os reinos da terra e me encarregou de lhe edificar uma casa em Jerusalém, que está em Judá; quem entre vós é de todo o seu povo, que suba, e o senhor, seu Deus, seja com ele.” (2Cr 36:23; Ed 1:2-3a).

Cumpriu-se, desse modo, a predição feita pelo profeta Isaías a aproximadamente 160 anos antes acerca de Ciro, o ungido do Senhor (Is 44:28).

Comunidades judaicas no Cativeiro

            Os judeus na Babilônia desde o princípio se constituíram num povo à parte, e não demorou muito que eles mostrassem aos seus opressores que pertenciam a uma raça elevada e professavam uma religião superior. É provável que em certos lugares os judeus formaram pequenas comunidades, tendo os seus anciãos e o seu governo próprio, como aquela perto do rio Quebar nos dias de Ezequiel. Com o transcorrer dos dias no exílio, a idolatria que tenazmente assediava os judeus não mais tinha atração alguma para eles, na verdade engendrou um despertar antagônico com relação a isso, por suas associações de caráter nacional (Sl 137), bem como por suas profundas convicções, nascidas da grandeza e Divindade de sua antiga religião, que não podia se comparar com a dos babilônios, eles amavam intensamente o seu culto, sendo mais forte do que até aí tinha sido a crença de que YHWH era o Senhor de toda a terra.

Desta forma os judeus se transformaram em testemunhas do poder e amor do Deus YHWH perante os babilônios, e exerceram sobre aqueles com os quais mais conviviam uma forte influência moral. No cativeiro os seus princípios e crenças se consolidaram. O próprio fato de terem sido destituídos do Templo, altar e dos sacrifícios gerou neles uma retomada aos princípios fundamentais da fé judaica. Por este motivo foram formadas no exílio escolas de teologia judaica (precursoras das sinagogas) e, portanto, quando enfim, chegou o dia da restauração, não eram fracas as suas convicções, nem desordenado o seu sistema doutrinário e possuíam uma austera crença monoteísta e um credo religioso distinto, não podendo efetuar domínio na sua alma as fascinações da idolatria.

Podemos observar isso nas palavras do professor Cornill, de Konigsberg: “uma das maiores ironias do destino que a história universal conhece, ou falando mais propriamente, uma das mais admiráveis provas dos caminhos maravilhosos que a Divina Providência toma para a consecução dos seus mais importantes desígnios, é esta: a completa realização e permanente consolidação do judaísmo puro que afastou inteiramente qualquer corrente contrária as idéias e costumes israelitas e rejeitou todo paganismo, somente foi possível sob a proteção e com o auxílio de um governo idólatra”.

Certamente o tempo do exílio foi um período de grande atividade literária entre os judeus no sentido de coligir, preservar e editar antigas narrações. Por conseguinte, podemos atribuir ao povo judeu a preparação do caminho para a vinda do Cristianismo, uma vez que forneceu por meio desta preservação literária à jovem igreja sua mensagem, o Antigo Testamento.

Outra questão digna de destaque é que embora os judeus fossem uma nação pequena, eles ocupavam a Palestina, um pedaço de terra que ligava Ásia, África e Europa. Sua posição central e o fato de ter sido conquistada e levada em cativeiro, ajudou a espalhar suas ideias religiosas por todo o mundo mediterrâneo. O judaísmo contrastava flagrantemente com a maioria das religiões pagãs, ao alicerçar-se num sólido monoteísmo espiritual burilado no cativeiro babilônico. Depois da sua volta deste cativeiro, os judeus nunca mais caíram em idolatria. Os ditames de Deus para eles através das Escrituras Sagradas eram de total fidelidade ao único Deus verdadeiro de toda a terra. E esse sublime monoteísmo foi espalhado por numerosas sinagogas (O conceito de sinagoga nasceu no cativeiro babilônico e se consolidou no período dos impérios subsequentes) localizadas em volta da área mediterrânea durante os três últimos séculos anteriores à vinda de Cristo. Os judeus formaram uma instituição de ensino teológico chamada de Sinagoga que nasceu da necessidade decorrente da ausência do Templo de Jerusalém durante o cativeiro babilônico, com isso a sinagoga se tornou parte integrante da vida judaica. Através dela os judeus e também muitos gentios se familiarizaram com uma forma superior de viver. O apego à Lei que foi adquirido neste período produziu um forte conceito messiânico na mentalidade israelita, que ajudou de forma proeminente para a formação do cenário no qual nasceria Jesus Cristo.

Na parte moral e ética da Lei judaica, o judaísmo também ofereceu ao mundo o mais puro sistema ético existente. O elevado padrão proposto nos dez mandamentos contrastava acentuadamente com os sistemas éticos predominantes nos Impérios; e essa perspectiva moral e espiritual favoreceu a doutrina de pecado e redenção, na qual a Salvação vinha do Deus YHWH somente e não seria encontrada em sistemas racionalistas, científicos ou politeístas de ética ou nas subjetivas superstições.

O modelo imperial ao qual os judeus ficaram submetidos no cativeiro provocou no povo uma mudança estrutural nas áreas política, administrativa e econômica. Se nas sinagogas identifica-se um novo modelo de promulgação da religião, fé, e educação, na área econômica vê-se que o povo tornou-se mais voltado aos meios mercantis de negócio, não estando mais limitados à agricultura e a pecuária.

Sesbazar e Zorobabel

 

Na descrição do retorno do cativeiro e da edificação do Templo em Jerusalém, aparecem dois proeminentes nomes, Sesbazar e Zorobabel, os quais têm sido muitas vezes identificados como uma só pessoa, onde Sesbazar seria um nome babilônico de Zorobabel. Sesbazar guiou os judeus para Jerusalém (Ed 1:11), mas Zorobabel também os conduziu (Ed 2:2; 3:2). Sesbazar lançou os alicerces do Templo (Ed 5:16); mas Zorobabel foi o superintendente da obra (Ed 3:2,8; Ag 1:12-14; Zc 4:10). Entretanto Esdras 5:14 nos possibilita a conclusão de que Sesbazar tenha morrido pouco tempo depois do regresso, e assim Zorobabel passou a ser seu sucessor natural, ou que ele,  Sesbazar, fosse um representante judeu na corte do império ao qual foi conferida a responsabilidade de organizar o regresso e reconstrução do Templo (Ed 1:8; 5:13-17), e ele estabelecera a Zorobabel como governador para guiar os judeus no retorno à Jerusalém e na construção (Ed 2:2).  Após o decreto, Ciro nomeou a Sesbazar governador de Judá (Ed 5:14). E guiados por Zorobabel (Ed 1:8), 49.897 judeus regressaram a Jerusalém. No sétimo mês do seu regresso, os israelitas levantaram um altar e observaram a Festa das Cabanas. No segundo mês do segundo ano, foram lançados os alicerces do templo. À medida que progrediam as obras do templo, os samaritanos quiseram unir-se imediatamente a eles. Mas reconhecendo a impureza do sistema religioso dos samaritanos, ou talvez motivados por senso de exclusividade, os líderes judeus declinaram da proposta. Assim desprezados, os samaritanos, tentaram impedir a obra do templo, uma hostilidade que continuou por dezesseis anos (536-520 a. C.), período após o qual Dario I subiu ao poder.

Incentivados por Ageu e Zacarias, o povo, reiniciou a obra do templo. Entretanto, Tatenai, sátrapa de toda região oeste do Eufrates, tendo ouvido o apelo dos samaritanos foi investigar a situação e desafiar a autoridade dos judeus. Enviou uma carta ao imperador Dario I questionando a construção do templo. Visto que os judeus apelavam para o decreto de Ciro, investigou a existência do documento, ficou convencido da legítima causa dos judeus e emitiu um parecer em seu favor: ordenou que Tatenai não apenas cessasse qualquer tipo de interdição, mas também que financiasse toda a reconstrução e serviços religiosos associados ao templo, o qual em quatro anos foi concluído.

 

 

Esdras

Esdras era sacerdote e um dos cativos da Babilônia, onde provavelmente nasceu. Era filho de Seraías e bisneto do sacerdote Hilquias, que orientara a reforma feita pelo rei Josias. Estudou, praticou e ensinou a Lei do Senhor como um escriba preparado.  Foi o mais provável autor dos livros de 1 e 2 Crônicas, Esdras e Neemias. De acordo com 2 Macabeus 2:13-15, ele teve acesso à biblioteca de documentos escritos reunida por Neemias. Sem dúvida Esdras se utilizou desse material para escrever os capítulos de 1 ao 6 de Esdras, assim como fez com Crônicas, e fez uso do diário pessoal de Neemias. Foi um homem piedoso, marcado por uma forte confiança no Senhor, pela integridade moral e por repulsa ao pecado. Também era um homem de profunda humildade; cheio de ardente zelo pela religião (Ed 7:10; 8:21-23), afligindo-se muito com os pecados do povo, e empregando todos os esforços para trazer os desviados ao caminho do arrependimento (Ed 9:3; 10: 6, 10).

A importância de Esdras como professor da Lei é com frequência comparada com a de Moisés, o legislador, que começou a escrever o Antigo Testamento. Ambos eram levitas; Moisés escreveu os primeiros cinco livros; Esdras escreveu ou compilou os quatro últimos. Seu movimento reformador conquistou para ele o título de “segundo formador da nação judaica”.

Ao assumir o poder, Artaxerxes I, elaborou um decreto que constituía Esdras como chefe de Jerusalém. Com isso, Esdras viajou da Babilônia para Jerusalém em 457 a. C., levando consigo um grupo de levitas, a fim de ensinar a Judá a Lei de Deus, para embelezar o templo e para restaurar o culto no templo (Ed 7:7). Após quatro meses de viagem, chegou a Jerusalém e ofereceu holocaustos ao Senhor. Encontrou uma situação que lhe entristeceu o coração: O povo, os sacerdotes, os levitas e os líderes tinham feito casamentos mistos em grande número com seus vizinhos idólatras. Diante disso Esdras e o povo fizeram um pacto em que todas as mulheres e os filhos estrangeiros seriam despedidos. O povo se arrependeu e os sacerdotes e demais líderes reafirmaram seu compromisso para com a aliança do Sinai (Ed 10:1-8). Três dias depois, todos os homens da nação estavam reunidos em Jerusalém e lá receberam instruções para que dissolvessem aquelas uniões ilegais, a fim de que pudesse ser restaurado um povo puramente judaico.

Segundo a tradição judaica, cinco grandes obras são atribuídas a Esdras:

  1. A fundação da “Grande Sinagoga”;
  2. A determinação do cânon das Escrituras, com a sua tríplice divisão em Lei, Profetas e Hagiógrafos;
  3. A substituição dos caracteres quadrados caldaicos pelos antigos hebraicos e samaritanos;
  4. A compilação dos livros de Crônicas e provavelmente de Ester, além do acréscimo da história de Neemias à sua;
  5. O estabelecimento das sinagogas.

Nada mais está registrado acerca de Esdras e seu ministério depois de seu primeiro ano em Judá até que Neemias chegou, em 445 a. C., treze anos depois. Não resta dúvida de que esses anos foram bastante difíceis para Esdras, com respeito à administração interna e a incessante oposição dos samaritanos e outros povos. Os motivos que determinaram a ida de Neemias à Jerusalém são um testemunho claro e evidente que Esdras enfrentava, e tudo que Neemias lá encontrou apenas os confirma.

Esdras faleceu pouco depois da celebração da Festa dos Tabernáculos. Sua missão estava terminada. Foi sepultado em Jerusalém, com grande magnificência.

 

Neemias

Neemias era filho de Hacalias, irmão de Hanani. Ocupava um cargo de confiança do rei Artaxerxes, servindo como copeiro. Em 445 a. C., Neemias, através de seu irmão Hanani e seus companheiros de viagem, soube que Judá se encontrava em grande miséria e desprezo. Ao ouvir essas palavras entristeceu-se profundamente, chorou, lamentou e esteve jejuando e orando perante Deus, pedindo que lhe desse graça perante o rei para que este o dispensasse para viajar a Jerusalém, a fim de reedificar a cidade (Ne 1). Depois disso, estando Neemias exercendo seu ofício real, demonstrou tristeza de coração, pois nunca estivera triste diante do rei. Percebendo isso, Artaxerxes se inteirou de todos os fatos que atribulavam o espírito de Neemias, e assim, autorizou sua partida para a cidade de Jerusalém e lhe deu cartas reais que garantiam acesso seguro por todas as províncias além do Eufrates, e patrocínio do governo persa para a reconstrução (Ne 2:7, 8).

Chegando a Jerusalém, Neemias descobriu que a situação era pior do que imaginava. As muralhas e outras estruturas estavam tombadas em ruínas e não havia males que os povos vizinhos não lhes causassem, pois devastaram os campos, levaram prisioneiros os habitantes da cidade e encontravam-se cadáveres pelas estradas. Não somente isso, mas os oficiais e administradores de outros distritos foram radicalmente contrários à reconstrução da cidade, e entre eles estavam Sambalate, Tobias, os árabes, os amonitas e os asdoditas, os quais se uniram contra Jerusalém a fim de os desviarem o seu intento. Esses povos conspiraram, continuamente, ataques contra os que trabalhavam na reedificação da cidade, ao ponto de Neemias instruir ao povo que trabalhassem armados e prontos para peleja, com o objetivo de se defenderem contra esses opositores (Ne 4:16-23). Vale à pena ressaltar que apesar de todas as controvérsias, o processo de construção não sofreu nenhuma interrupção (Ne 3:6), sendo finalizado em 52 dias (Ne 6:15). Seus feitos não ficaram restritos apenas às reconstruções civis, mas contribuiu também, na reestruturação da moral do povo, introduzindo a Lei, a boa ordem e restaurando a adoração.

Depois de assegurar que a cidade estava bem protegida, Neemias deu início a mais importante de todas as tarefas. Ele precisava agora reorganizar toda a vida e administração pública e, acima de tudo, efetuar uma sólida e profunda reforma espiritual. Logo de início, ele designou que houvesse porteiros, cantores e outros que serviam no santuário, além de estabelecer seu irmão, Hanani, como prefeito da cidade. Então passou a tratar os problemas econômicos da província. Certamente, o novo cerco em Jerusalém durante as semanas de construção provocou instabilidade no povo, aumentando a miséria para muitos, pois o alimento estava em falta e os que o possuíam vendiam-no a preço exorbitante. O mais vergonhoso era que os que lucravam com a situação não eram os pagãos, mas os judeus ricos! Furioso, Neemias ordenou que essa prática perniciosa cessasse, e todas as propriedades confiscadas fossem devolvidas à seus legítimos donos (Ne 5).

Outro passo administrativo e político tomado por Neemias foi a melhor redistribuição dos judeus na terra, pois a maioria dos que retornaram se estabeleceram em lugares onde a destruição havia sido mínima e Jerusalém estava abandonada (Ne 7:4). Com a reconstrução dos muros outras famílias tentariam se restabelecer na capital. Neemias fez um levantamento genealógico das famílias, permitindo que voltassem para a cidade apenas as que habitassem lá anteriormente.

Em seguida, durante sete dias, desde o raiar do sol até o meio-dia, Esdras e os instrutores levitas abriram o livro da Lei e o interpretaram e explicaram, a fim de que o povo entendesse o que estava sendo lido. Essa leitura e exposição pública do livro de Deus ocasionaram uma grande onda de arrependimento entre o povo, um grande reavivamento e uma aliança solene de observarem a Lei (Ne 8-9).

Após doze anos de trabalho em Jerusalém, Neemias retorna a corte de Artaxerxes, cerca de 434 a. C., permanecendo ali por algum tempo (Ne 13:6). Seu retorno a Jerusalém foi assinado por novas reformas, dando cabo dos casamentos ilícitos com muita violência, restabelecendo as contribuições, para os levitas, que tinham cessado e estabelecendo tesoureiros para administrar essa causa (Ne 13:6-30).

Conclusão

 

 

            Entende-se que o cativeiro na verdade foi uma notável dispensação da Providência, que provocou a devastação de toda a terra de Judá, a destruição da Arca da Aliança, o incêndio do Templo do Senhor e a assolação de Sião, fazendo com que o povo, tal como nunca antes, estivesse sob o poder de inimigos bárbaros, longe de sua pátria e realocado num país idólatra, mas que por meio disso o Deus YHWH consolidou o conceito monoteísta na mentalidade judaica e preparou a nação que seria o principal cenário da vida de Jesus Cristo e surgimento do Cristianismo.

 Bibliografia

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ELLISEN, Stanley. Conheça melhor o Antigo Testamento. Editora Vida: São Paulo, 2001.

HALLEY, Henry Hampton. Manual Bíblico de Halley. Editora Vida: São Paulo, 2001.

JOSEFO, Flávio. História dos Hebreus. Casa Publicadora das Assembléias de Deus: Rio de Janeiro, 2004.

 

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CARINS, Earle E. O Cristianismo Através dos Séculos: uma história da Igreja Cristã.Vida Nova: São Paulo, 2008.

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8 responses to this post.

  1. Posted by Adeilton on 2 de outubro de 2011 at 7:19

    Muito bom!Ajudou-me muito este teu trabalho!

    Resposta

  2. Posted by gilmar martins on 17 de novembro de 2012 at 14:29

    muito bom um trabalho em ordem dos fatos! muito bom mesmo parabens.

    Resposta

  3. E cunhada vc tá chique hein!!!! Vou usar seu estudo na minha aula da EBD… rsrs Bjus :)

    Resposta

  4. Posted by daniel on 29 de outubro de 2013 at 14:21

    Muito bom vou ministrar hj a palavra me ajudou muito obrigado

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